segunda-feira, 2 de junho de 2008

A última vida

Nós achávamos que ela tinha sete vidas, mas esquecemos de descontar muita coisa. Quando uma pessoa passa de tudo na vida e não morre esperasse que essa pessoa seja a ultima a morrer, esperasse que viva para sempre, ou no mínimo que viva muito.
Com certeza minha tia viveu muito e aproveitou cada minuto de sua vida como se fosse o ultimo, pois de certa forma ela sabia que devido aos seus problemas de saúde a morte podia errar seis vezes o seu coração de gato, mas uma hora ou outra ela iria acertar. Não foi como sempre que ela ficou no hospital e todo mundo se preocupou, foi um ataque fulminante, enquanto ela brincava com a neta que não completou nem um ano de vida ao lado daquela avó, que era tão especial para todos.
Se eu tivesse que resumir em palavras a sua vida, eu diria que foi à beira de um lago, com muitos peixes num balde, com a família ao redor, rindo, contando piada, falando dos outros, uma vida muito feliz, que apesar das coisas que ocorrem o sorriso nunca deixou de existir naquela face.
Prefiro não me lembrar de seu corpo no caixão, e da netinha estendendo as mãos para que a Vó pelo menos por uma ultima vez a afagasse, não posso contar em palavras o número de lagrimas que derramei e o sentimento de perda e dor que senti, uma tia adorada não pode morrer assim, do nada.
Na hora do velório eu só pensava que ela era muito nova, que deixou seus filhos e seu marido, que a netinha de um ano e mesmo os mais velhos, não teriam aos 20 anos a Vó que eu tenho, molhei a roupa do meu Vô com lágrimas e da minha mãe também.
Estas mesmas lagrimas congelaram em minha face quando pela ultima vez pudemos ver seu rosto pelo vidrinho do caixão, pela ultima vez estivemos junto ao seu corpo, mas sei que eternamente ela estará viva em nosso corações. Em cada lembrança, em cada pescaria, em cada festa de família que esta por vir, sempre a eterna tia Marli. O vento frio do inverno do sul será para sempre a marca registrada do dia em que perdemos uma pessoa que era muito amada por todos. Toda vez que eu sentir o frio cortar meu rosto lembrarei do enterro, do choro, das coroas de flores, dos vasos, dos anjos do cemitério, nunca imaginei que seria agora... sempre tivemos certeza de que ela tinha sete vidas, mas esquecemos de descontar muitas coisas...

3 resposta(s):

Antônio Dutra Jr. disse...

Há exatamente um ano atrás eu estava no enterro da segunda irmã da minha avó que faleceu em uma semana. Aqueles dois velórios no intervalo de sete dias me fazem entender perfeitamente o que tu está sentindo e sentiu.
Que Deus conforte teu coração e ilumine tua família.

Beijo!

O Antagonista disse...

Que belo texto!

A morte é o único encontro na vida do qual nós não sabemos quase nada... apenas temos a certeza que irá acontecer um dia. Fica a saudade e o respeito por aqueles que se foram...

abraço!

Anônimo disse...

O que Antônio falou eu me lembro perfeitamente. Eu tentando passar forças para ele, logo eu que não tinha enfrentado a morte tão de perto e frequentava há tão pouco tempo o blog dele.
Pouco tempo depois foi a hora da minha avó.
Por mais que me dissessem coisas amravilhosas, nada parecia preencher o vazio que ela deixou. E é como agora, não tenho muito o que te dizer, mas já to vendo que vc está vendo tudo pelo lado das lembranças positivas, isso é maravilhoso!
O espaço que ela deixou vai sempre existir, mas tentar preencher com as lembranças é uma ótima forma.

Qlqer coisa é só me procurar, tá?
;**

 


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